Uma das discussões mais acirradas dentro da educação brasileira diz respeito ao ensino de Sociologia e Filosofia. Porém, após a publicação do artigo escrito por Reinaldo Azevedo À revista Veja intitulada “Ideologia na cartilha” tal discussão foi reforçada tanto no âmbito acadêmico quanto no âmbito público, principalmente nas redes sociais.
O que pretendo passar nesse breve artigo é minha experiência enquanto professor da rede estadual de ensino do Ceará e parte da estatística de educadores graduados em História que acabam por lecionar Sociologia e Filosofia apenas para complemento de carga horária.
Para nortear minha análise utilizo os seguintes dizeres do redator anteriormente citado Reinaldo Azevedo:
“As tolices dos reacionários da filosofia e da sociologia. Assim como essa gente não entende humor numa propaganda — e, por isso, vê na independente e milionária Gisele Bündchen uma agente do machismo! também não entende ironia num texto. Aquele em que afirmei que o Brasil precisa de menos sociólogos e filósofos e de mais entenheiros que se expressem com clareza continua a render protestos enfurecidos. E, como não poderia deixar de ser, quanto mais furiosos, mais burros. É evidente que não quero banir a sociologia e a filosofia do país ou da escola. O que já deixei claro é que essas disciplinas não podem integrar a grade curricular sacrificando-se aulas de português e matemática. O desempenho dos estudantes no ensino médio nessas áreas já é sofrível hoje; imaginem se as aulas forem cortadas.” In: Blog Reinaldo Azevedo. http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/as-tolices-dos-reacionarios-da-filosofia-e-da-sociologia/ Acessado em: 08/02/2012. Adaptado.
É fato que um dos entraves na educação com relação às disciplinas de Filosofia e Sociologia está relacionada à reduzida carga horária de uma aula por semana. Se levarmos em conta que uma aula geralmente dura 50 minutos podemos concluir que é humanamente impossível transmitir dois conhecimentos pautados em análises teóricas e reflexão a cerca das diferentes realidades históricas vividas pela humanidade. A visão filosófica e sociológica tem um importante papel no desenvolvimento do senso crítico e da cognição reflexiva dos alunos. Não é apenas uma transmissão teórica. É um trabalho de construção e desconstrução da realidade e de suas características culturais. Porém, o grande erro na crítica feita pelo colunista da Veja é analisar os problemas de tais disciplinas pelo viés da redução das aulas de Português e Matemática. O problema não é esse.
A redução da carga horária de outras disciplinas é apenas uma estratégia de arranjo e flexibilidade da escola. Se o ensino fosse pautado apenas em Matemática e Português teríamos a vitória do mercado de trabalho substituindo a mão de obra analfabeta por uma alfabetizada e que sabe utilizar as quatro operações, ou seja, a velha expressão “crítica-matemática” do trocar seis por meia dúzia. Não podemos negar que as Ciências Humanas ainda são percebidas como perigosas, pois tem o senso crítico como carro chefe. É fácil tachar tais disciplinas como “ideológicas”, principalmente esquerdistas, diga-se de passagem. Porém, é raro qualquer meio de comunicação de massa sendo revista ou televisão trazer um professor de ensino médio e perguntar como ocorrem tais problemas na prática e quais as possíveis soluções para o fim dos mesmos. Não nego que o olhar de fora é sempre importante. Mas as ciências humanas ensinam que não existem verdades absolutas e sim diferentes pontos de vista sobre um mesmo assunto. O problema é muito mais profundo.
Ainda existe uma forte mentalidade dentro da educação brasileira que coloca o professor de História como apto a dar aula de Sociologia e Filosofia. Reflita sobre essa simples questão: Qual aula teria maior aproveitamento? Filosofia ministrada por um professor de história ou filosofia ministrada por um filósofo?
A resposta é lógica. Muitos podem concluir então que faltam professores de filosofia e sociologia nas escolas. Negativo. Eles existem e são numerosos. Mas infelizmente muitos deles estão dando aula de História para complementar a carga horária. Parece piada, mas esse é o problema central. Um professor de filosofia e sociologia para ficar lecionando apenas sua disciplina tem que se lotar em mais de duas escolas. Imagine como seria a vida de um professor dando aula em locais extremos de uma metrópole? Infelizmente nossos educandos perdem em dois aspectos. Não serem instruídos devidamente em disciplinas onde o professor é originalmente formado e sofrer com uma política educacional que não se importa com a própria educação.
Não quero desmerecer os professores das Ciências Humanas que lecionam outras disciplinas. Precisamos sobreviver, nosso esforço é valido. Porém, sabemos que a contribuição seria muito maior com um profissional apto para sua respectiva faculdade intelectual e com uma carga horária decente.






